Fabio Mechetti Diretor Artístico e Regente Titular

Golpes do destino de Mahler

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11 de janeiro de 2012

Golpes do destino de Mahler

Na noite do dia 6 de dezembro do ano passado, Rafael Alberto empunhou um pesado martelo e desferiu dois golpes mortais em Mahler. Quando, onde e como deveria acontecer tal ação foi descrito pelo próprio autor na partitura de sua Sexta Sinfonia, também conhecida como “Trágica”. Rafael é o chefe de naipe de Percussão da Filarmônica, que finalizou os concertos da série Vivace em 2011 executando a peça descrita por Alma Mahler, esposa do compositor austríaco, com as seguintes palavras: “Nenhuma outra obra saiu tão diretamente de seu coração como esta”.

O último movimento da obra seria, segundo o próprio Mahler, uma premonição de sua queda, simbolizada pelos então três golpes executados pelo Martelo de Thor, nome dado ao “instrumento” que acabou virando um ícone da "Trágica". Em 1907, apenas três anos após compor a Sexta Sinfonia, a vida do compositor começou a degringolar: perdeu a posição de diretor que ocupava na Ópera de Viena, descobriu sofrer de uma grave doença cardíaca, que, em 1911, viria a ser a causa de seu falecimento, e, por fim, perdeu sua filha mais velha, Maria Anna Mahler. Nas palavras do compositor, “o herói recebe três golpes do destino dos quais o terceiro o abate como uma árvore!”. Gustav Mahler acreditava piamente que havia antecipado seu triste fim em sua música.

Se originalmente havia escrito três “golpes”, por que apenas dois foram desferidos no concerto da Filarmônica em dezembro passado? O compositor, em uma revisão da sinfonia, excluiu a última pancada alegando deficiências técnicos. No entanto, anos depois, Alma confessou que seu marido acreditava que, caso executasse a terceira martelada, seria como se estivesse evocando para si próprio o fim do herói entoado em sua obra. Não é o caso do Maestro Fabio Mechetti, mas alguns regentes retomaram o golpe fatídico em suas interpretações da "Trágica", como é o caso do lendário Leonard Bernstein.

Ao compor sua autobiografia em forma de canções e sinfonias, Mahler acaba fazendo uma biografia da própria humanidade. Como lembrou Oiliam Lanna, professor da Escola de Música da UFMG, em texto especial para o programa da Filarmônica, as peças “são exemplos de transcendência, de elevação a uma esfera de comunhão, de compartilhamento do humano, do sofrimento, da alegria e do ideal de ascese”.

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