Fabio Mechetti Diretor Artístico e Regente Titular

Confira a reportagem "Senhor da Batuta"

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19 de dezembro de 2011

Confira a reportagem "Senhor da Batuta"

Senhor da Batuta
Há quatro anos em Belo Horizonte, maestro Fabio Mechetti faz da excelência a principal marca de sua atuação à frente da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

Texto: Mariana Peixoto
Foto: Mineral Image

Ao voltar para casa em Jacksonville, Flórida, o maestro Fabio Mechetti ouvia no rádio uma sinfonia. Não tinha a menor ideia de qual a obra, que lhe lembrava Tchaikovsky e Rachmaninoff. Dessa maneira, só poderia ser de um compositor russo. Ao estacionar, ficou no carro até que a peça terminasse para descobrir tratar-se da Sinfonia No. 1 de Kalinnikov. Havia acertado a origem do autor da obra, que nunca tinha ouvido. “Depois disso, logo a programei para o meu Ipod. Não ouço mais coisas que já ouvi e decorei, pois existe muita música para ser descoberta.”

Um ano atrás, o regente e diretor artístico da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais contabilizou mil concertos. Ainda não fez a conta com os números de 2011, mas como em Jacksonville também acumula as duas funções na Orquestra Sinfônica, a média continua alta. Ainda mais levando-se em consideração que, se em Belo Horizonte rege somente uma vez ao mês, durante a temporada norte-americana o número de concertos regidos pode chegar a seis por semana.

Aos 54 anos, o paulistano Mechetti está radicado há 30 nos Estados Unidos. O retorno ao Brasil, em 2008, só se deu porque o convite para criar, do zero, uma filarmônica foi irrecusável. “Várias vezes, no decorrer desses anos, me chamaram para ser regente de orquestras no país. Mas não senti condições reais de fazer um trabalho sério. Somente dessa vez considerei encarar a ponte aérea porque vi que havia vontade política de fazer um trabalho de excelência. E, logicamente, o resultado da orquestra fala por si só.”

Dois concertos em Belo Horizonte estão na agenda de Mechetti neste mês. Com o fim da temporada 2011, a filarmônica e seu regente só retornam no início de março, para a abertura de mais um ano, que está com a programação fechada até dezembro. “As pessoas têm que entender que como a orquestra é nova, tem que ser construída artisticamente. A melhor maneira é explorar o repertório o mais diverso possível, que traga artistas internacionais de qualidade, que mostre não só o repertório tradicional, mas algo que desafie mais o público, com obras contemporâneas de compositores vivos. É um quebra-cabeças que vai sendo montado, levando-se em consideração a diretriz artística, as necessidades do corpo artístico e a expectativa do público.”

O papel de regente-titular é a parte mais visível e prazerosa que Mechetti tem à frente da filarmônica. Como diretor artístico, ele tem que montar programação, administrar as relações de trabalho com os músicos, trabalhar dentro do orçamento, entre outras questões. “Não posso, por exemplo, programar todas as sinfonias de Mahler para uma temporada, ou acabo com o orçamento”, admite.

Para o corpo artístico, um dos desafios atuais de Mechetti é tentar encontrar músicos que ocupem as vagas ainda abertas na orquestra. “As mais difíceis de preencher são para trompa, fagote, violino e viola. São instrumentos muito específicos e não somos somente nós com essa dificuldade, mas orquestras do mundo inteiro. Talvez, historicamente, o Brasil sempre tenha tido problemas com instrumentos de cordas.” Atualmente, 25% do corpo artístico é formado por músicos estrangeiros. “Nosso processo de avaliação é atrás de um biombo. O músico, seja de onde for, se inscreve e tem direito a fazer uma audição. Não sabemos quem é, se é homem ou mulher, até o fim da audição. Às vezes achamos que deve ser estrangeiro e é brasileiro e vice-versa. Então, o único critério é o mérito artístico do candidato”, afirma Mechetti.

Para ele, a figura de um regente tem pouco da figura autoritária que muitos imaginam. “O processo de fazer música não é imposto, não existe isso de falar que “ou você toca desse jeito senão...” Mas, ao mesmo tempo, existe um ditador acima de todos nós que é o compositor. Você tem que tocar o que está escrito ali e tem que interpretar dentro do que o compositor disse. Porém, o regente tem que exercer autoridade, pois há 100 músicos e eles não podem fazer do jeito que querem. Você tem que ter confiança e credibilidade perante os músicos para que eles o sigam. E o regente também tem que entender que sem os músicos ele não é ninguém. Não fazemos o som sozinhos com a batuta.”

Mechetti não tinha mais do que 5 anos quando assistiu, pela primeira vez, a uma apresentação de ópera. Primeira lembrança musical que tem, consegue se recordar de algumas cenas da montagem de Manon (de Jules Massenet) regida pelo pai, o maestro Marcello Mechetti, no Teatro Municipal de São Paulo. “É uma ópera longa e dizem que fiquei acordado o tempo inteiro prestando atenção.” Com avô, Sixto Mechetti, também regente, o ambiente musical sempre foi natural. Mas quando Mechetti decidiu-se, definitivamente, pela música, a opção não foi bem aceita pelos pais.

“Nenhuma família de músicos quer que os filhos sigam carreira porque os pais sabem quão difícil e insegura ela é”, conta ele, que tem em Mozart seu compositor favorito. Mechetti já regeu a maioria do repertório sinfônico. “Mas há óperas que gostaria muito, já que é um repertório que ainda não me enfronhei muito. Como tenho mais dois anos em Jacksonville (onde está há 11 anos à frente da sinfônica), estou colocando no programa tudo o que gostaria, como Tristão e Isolda (Richard Wagner) e Othello (Giuseppe Verdi).”

Estudante de piano desde a infância, Mechetti evoluiu, participou e venceu concursos, mas nunca pensou seguir carreira como instrumentista. Fascinado pelo som da orquestra desde sempre, na hora de prestar vestibular entrou para o curso de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes (Eca) da USP. Não ficou mais do que dois anos. “Quando vi que o vírus da música era mais forte, me transferi para a Unesp para estudar composição. Já regia festivais de música, tinha feito aulas com Eleazar de Carvalho (referência entre os maestros brasileiros, foi regente das sinfônicas do Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo). A família não gostou quando resolvi que a música seria minha carreira, tanto que em 1981 me casei e fui embora do Brasil.”

Como bolsista, foi para a prestigiosa Juilliard Scholl de Nova York, “até hoje a única escola do mundo que tem uma orquestra só para os alunos de regência.” Com a família hoje bastante realizada com a carreira seguida pelo único filho homem – “mas assim como deu certo comigo, tem muitos casos que dão errado” – Mechetti tenta levar a mesma formação musical para suas filhas, as gêmeas Carolina e Marina, de 8 anos, que estão estudando piano, violino e flauta. Mesmo com a atuação no país, a mulher, a pianista Aída, e as meninas vivem na Flórida. Ficam uma temporada no Brasil somente entre junho e julho, quando os quatro alugam uma casa no Morro do Chapéu, que lembra em muito a que moram nos EUA.

Na casa da família Mechetti, por sinal, pouco se ouve música. “Escuto muito raramente. Se é clássica e estou dando um jantar e coloco de fundo, uma pessoa pode ir falar comigo e de repente estou num outro mundo. Música popular brasileira ouço somente em situações sociais, tanto que não há nenhuma em meu Ipod. Como convivo com música o dia inteiro, no momento de relaxamento não quero ouvir nada.” O silêncio é caro ao maestro, tanto que ele penou, ao chegar a Belo Horizonte, para encontrar hotel em que pudesse dormir. “Demorou até achar um que tivesse vidro duplo e não deixasse passar tanto o som da rua. É impressionante como o silêncio inexiste hoje em dia. E adoro o silêncio, você não acredita como”, conclui.

Para ler no site da revista, clique AQUI.

Categorias: Fabio Mechetti

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