Fabio Mechetti Diretor Artístico e Regente Titular

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24/11/2011

Vivace X

Filarmônica executa Sinfonia nº 6 de Gustav Mahler

Como forma de encerrar as homenagens pelos 100 anos de morte de Gustav Mahler, a Filarmônica de Minas Gerais apresenta uma das mais complexas sinfonias do compositor austríaco, durante o último concerto da série Vivace em 2011. Com regência do maestro Fabio Mechetti, Diretor Artístico e Regente Titular da Orquestra, os músicos interpretam a Sinfonia nº 6 em lá menor, “Trágica”, obra imbuída de profundo subjetivismo, na qual o compositor confessa suas aflições, seu amor e seu pressentimento diante de um fim inevitável.

As sinfonias de Gustav Mahler (Áustria 1860-1911) são obras longas, exigentes. Demandam refinados recursos técnico-interpretativos do regente, dos instrumentistas – também de cantores e solistas, como é o caso da Segunda, Terceira, Quarta e Oitava Sinfonias –, e requerem uma escuta atenta, ativa. O ouvinte é convidado a mergulhar em um mundo de grande complexidade, onde uma simples linha melódica atinge dimensão polifônica, quando submetida a justaposições e superposições de cores, à maneira de uma melodia de timbres. Se pensarmos na superposição de melodias, própria do tecido contrapontístico, tal dimensão, com a polifonia de timbres, chega a atingir complexidades exponenciais.

A Sinfonia nº 6
A “Trágica” é um momento de encontrar o compositor virtuose da orquestra, que trouxe para seu “instrumento” o virtuosismo do regente. É também a oportunidade de revisitar procedimentos caros a Mahler: a riqueza de contrastes – que beiram a oposição –, o jogo antifonal entre densidades e rarefações, o trânsito tenso entre atmosferas; a presença arquetípica da marcha, anunciada, energicamente, nos compassos iniciais; os amálgamas tímbricos, cujas combinações denotam, também neste elemento composicional, um espírito de busca incessante.

Neste sentido, a obra é um exemplo significativo, considerando-se o efetivo instrumental mobilizado: madeiras e cordas numerosas; naipe importante de metais, dos quais oito trompas e seis trompetes; amplo naipe de instrumentos de percussão. O papel estrutural de instrumentos ou de grupos instrumentais, associado a outros elementos do tecido composicional, evidencia-se em diversas passagens da Sinfonia. Como exemplo, logo após a marcha de abertura, pode-se citar a intervenção de tímpanos e da caixa, que precedem dois acordes dos metais. Os acordes, sequências de duas tríades – maior e menor – descortinam um cenário novo, caracterizado por textura coral, entregue a madeiras e metais, que contrasta fortemente com o percurso anterior da obra. O coral é uma espécie de oásis entre dois temas, o segundo a representar Alma Mahler, conforme declaração do compositor.

Após a repetição da seção expositiva e em plena seção do desenvolvimento, novo contraste introduzido pela transparência da intervenção dos trêmulos de violinos, associados à celesta e ao emprego dos cincerros. No interior desse novo oásis – ou, com mais uma licença da imaginação, desse refúgio nos Alpes -, reencontra-se a sequência de tríades maior/menor e ecos do coral, agora nas trompas. No segundo movimento – Scherzo – são novamente os metais (trompetes) que, na mesma sequência, anunciam a seção central. Exemplos dessa organicidade do tecido composicional multiplicam-se ao longo da obra, demandariam longa exposição analítica e, evidentemente, teriam que passar pelo crivo da experiência.

Caso se ultrapassa o quadro da Sexta Sinfonia, encontra-se uma pluralidade de traços que a unem a outras obras sinfônicas de Mahler. Um desses traços, relacionado à oposição maior/menor, ouve-se em Das Lied Von der Erde [A Canção da Terra]. No canto do cisne mahleriano, o tenor enuncia, nessa ambiência harmônica, uma emblemática frase da obra: Dunkel ist das Leben, ist der Tod! [Sombria é a vida, é a morte!]. O privilégio de poder experienciar, em concerto, uma obra da magnitude da Sexta Sinfonia, deixa ainda mais em evidência características responsáveis pela reverência com que a posteridade trata a obra de Mahler. Mostra, ao lado da filiação Romântica, um espírito de modernidade, uma ousadia harmônica e uma inquietação na busca por sonoridade única.

As perspectivas abertas pelo compositor fizeram parte do aprendizado de gerações, a começar por seus contemporâneos, entre eles o jovem Schoenberg. Tal como este, Mahler poderia ter explicitado o coro de multivozes, que se unem em seu estilo, mas teria o direito de acrescentar, com a mesma sinceridade, que não se restringiu ao que encontrou. Seu trabalho foi, também, de elaboração e de alargamento dos horizontes que o levaram a realizar o novo.

6 de dezembro, terça-feira, 20h30
Grande Teatro do Palácio das Artes

Fabio Mechetti, regente

MAHLER  Sinfonia nº 6 em lá menor, “Trágica”

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