Fabio Mechetti Diretor Artístico e Regente Titular

Blog

voltar

04 de novembro de 2013

2014, um ano de migração

Nossa próxima Temporada "será o parágrafo final do primeiro capítulo da história da Filarmônica", como definiu o maestro Fabio Mechetti nesta entrevista.

2014 significa o fim do começo. É a temporada derradeira no Grande Teatro do Palácio das Artes antes de migrarmos para a Sala Minas Gerais, a casa feita para chamarmos de nossa. É nesse clima de despedida que traremos de volta alguns convidados que marcaram esses seis primeiros anos, como Nelson Freire, Arnaldo Cohen, Vadim Gluzman e Augustin Hadelich. No próximo ano, celebrarmos os 150 anos de Richard Strauss e Alberto Nepomuceno e os 100 anos de César Guerra-Peixe; interpretamos a Nona Sinfonia de Mahler, a Terceira de Brahms, a Primeira de Elgar, o Concerto para orquestra de Bartók, o mágico O quebra-nozes de Tchaikovsky... Visite o site especial da Temporada 2014 para as séries Allegro e Vivace e descubra.

Aqui, o nosso diretor artístico e regente titular, Fabio Mechetti, fala da Temporada 2014 e sobre como imagina a experiência musical do público e da Orquestra no novo espaço.

2014 marca o início do sétimo ano da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. O que o senhor destacaria desse percurso e aonde se pretende chegar?

A qualidade do grupo musical, aliada à estabilidade desse mesmo grupo formado ao longo dos anos. Ou seja, temos a Orquestra com 85 de suas 90 posições ocupadas por excelentes músicos já há algum tempo. Além disso, nesses primeiros anos conseguimos executar mais de 700 obras, o que corresponde a uma boa parte do repertório para orquestra. Por exemplo, já executamos todas as sinfonias de Brahms e várias de Mahler, Tchaikovsky, Dvorák, a maioria dos mais famosos concertos para piano e para violino. Agora começamos a repetir alguma coisa, como a Quinta de Tchaikovsky, a Terceira de Brahms, revisitando um pouco desse repertório importante. Acho também crucial o fato de termos trazido pra cá grandes solistas nacionais e internacionais.

Penso que a gravação do nosso primeiro CD comercial, assim como a parceria que vem sendo desenvolvida com o selo internacional Naxos para a gravação, no momento, de obras de Villa-Lobos, também merecem ser destacadas. Isso mostra que há uma confiança na qualidade da Orquestra, tanto localmente, porque o público de Minas Gerais e de outros estados brasileiros está comprando nossa execução de “A Grande”, de Schubert, como internacionalmente, pelo tradicional rigor da Naxos na escolha das orquestras com as quais pretende gravar.

O que podíamos e podemos fazer dentro do sistema atual, nós estamos fazendo, com resultados que, em parte, me surpreenderam por terem ocorrido antes do tempo. O grande empecilho para a maior evolução da Orquestra era o fato de a gente não ter uma sala. Neste sentido, 2015 vai ser realmente um passo enorme.

Por que é tão importante ter uma sala própria?

Primeiro, pela flexibilidade que teremos na programação. Segundo, por podermos ensaiar no mesmo local em que tocaremos, construindo uma sonoridade própria. Daí a importância de se completar a Orquestra e torná-la um pouco maior, pois vamos tocar mais vezes e ampliar o repertório para chegar ao nível ideal de uma orquestra deste porte. Com a Sala, poderemos introduzir novos projetos, como a Orquestra Jovem, a Academia de Música, sonhos antigos que não puderam ser efetivados por questões logísticas e financeiras.

Para os programas que já existem, como será a Temporada 2014?
Nas séries Allegro e Vivace, creio eu, conseguimos programar um repertório muito rico na construção da identidade da Filarmônica de Minas Gerais e respaldar esse processo com a participação de solistas que muito contribuem para a consolidação da qualidade de uma orquestra. Neste sentido, é muito bom voltar a tocar com Augustin Hadelich (violino), Vadim Gluzman (violino), Adriane Queiroz (soprano), Arnaldo Cohen (piano), Nelson Freire (piano), Luíz Filíp (violino), Fabio Martino (piano), Rachel Barton Pine (violino) e Ronaldo Rolim, jovem pianista que se apresentou conosco em um dos Concertos para a Juventude, em 2011. Há pouco eu falava de revisitar algumas peças e faremos isso sob uma regência diferente. Um exemplo é a Sinfonia nº 3 de Brahms, que será conduzida pelo maestro japonês Kazuyoshi Akiyama. Isso dá oportunidade, tanto à Filarmônica quanto a seu público, de conhecer uma obra por meio de diferentes visões, o que é fundamental para preservar o frescor das peças sinfônicas. Não se toca e não se ouve a mesma obra duas vezes, o que é um desafio e um prazer para todos nós, apreciadores e profissionais da música clássica.

Quais serão as comemorações de 2014?

Nós vamos celebrar os 150 anos de Alberto Nepomuceno, importante compositor brasileiro do século XIX, os 100 anos de outro referente da música sinfônica nacional, o compositor César Guerra-Peixe, e todo o mês de julho será dedicado aos 150 anos do compositor alemão Richard Strauss, o que nos dará a oportunidade de executar dez de suas obras. Entre elas teremos o Concerto para trompa nº 1 em Mi bemol maior. O pai de Strauss era trompista, e creio vir um pouco daí sua paixão pelas trompas. O fato é que são de Richard Strauss os dois principais concertos para trompa do repertório romântico.

Este ano também teremos algo um pouco fora do normal. Nós convidamos o clarinetista de jazz Eddie Daniels para tocar conosco um compositor que ainda não executamos, Jorge Calandrelli, e que escreveu um concerto para clarinete, muito bem escrito por sinal, mas com a linguagem do jazz.

E o que está programado para as séries como Concertos para a Juventude, Didáticos, Clássicos nas Praças, turnês?
Com nosso regente associado Marcos Arakaki estamos programando ampliar a experiência de concerto para as famílias e jovens que nos acompanham nos Concertos para a Juventude. Concerto a concerto nós vamos apresentar a História da Música, do Barroco ao Contemporâneo, com foco nos principais compositores de cada período.

Na série de Concertos Didáticos prosseguiremos com um repertório que nos permita apresentar uma orquestra, suas seções e instrumentos aos estudantes que, pela primeira vez, irão vivenciar um concerto sinfônico. Nossa média de público nesses concertos é superior a mil jovens por apresentação, e a esmagadora maioria nunca assistiu a uma orquestra.

2014 é um ano com Copa do Mundo e eleições, e isso dificulta apresentações em espaços abertos, mas, de qualquer forma, levaremos repertórios vigorosos aos Clássicos nas Praças e turnês por Minas Gerais, buscando encantar novos públicos com a beleza da música clássica.

Do ponto de vista da evolução da Orquestra, quais as obras mais desafiadoras em 2014?
Uma das obras mais desafiadoras será a Nona Sinfonia de Mahler. Um mês inteiro de Richard Strauss também vai exigir muito da Orquestra porque é mesmo tecnicamente muito difícil tocar Strauss. Mas é um compositor que nós, músicos, gostamos muito. Representa desafio e é lindo. Por isso, nos três concertos dedicados à celebração dos 150 anos de Strauss nós mostraremos diferentes facetas deste compositor. Como compositor de ópera, como compositor de música de câmara, como compositor de concertos e poemas sinfônicos.

Como o senhor imagina que o público irá ouvir a música executada pela Orquestra a partir de 2015, na Sala Minas Gerais?
Quando escutarem a Filarmônica na nova sala, ela vai soar duas vezes mais presente que na sala atual. O público perceberá a Orquestra mais junta, mais equilibrada, mais articulada. Nosso propósito é também ampliar a experiência musical, criando um espaço para o comentário do repertório antes dos concertos. Queremos convidar diferentes pessoas com conhecimento em música para possibilitar a contribuição de visões diversas sobre o universo sinfônico. Há ainda a futura instalação do órgão, o que, para Minas Gerais, é uma grande oportunidade, pois faz parte de sua tradição desde o período Barroco. Queremos que este órgão seja usado dentro da orquestra, como instrumento solista, em recitais, como acompanhador de obras corais; enfim, há muito a ser feito, colaborando para resgatar um vasto repertório.

Se 2015, com a Sala Minas Gerais, pode vir a ser “o primeiro ano do resto das nossas vidas”, como o senhor sintetizaria 2014?
Será o parágrafo final do primeiro capítulo da história da Filarmônica. Queremos nos despedir do Grande Teatro do Palácio das Artes com alegria pelo forte significado desses primeiros tempos que, espero, tenham marcado indelevelmente os corações de todos aqueles que presenciaram nossos concertos.

  • Compartilhe:

Mais Posts

    Maestro Fabio Mechetti recebe diploma de Honra ao Mérito

    No dia 9 de novembro, o Maestro Fabio Mechetti recebeu, na Câmara Municipal de Belo Horizonte, o diploma de Honra ao Mérito.

    continue lendo

    Maestro Efrem Kurtz sob a luz estroboscópica

    Em 1945, o regente russo foi retratado para a lendária revista Life pelas lentes do fotógrafo Gjon Mili

    continue lendo

    Filarmônica celebra Richard Wagner

    80 minutos dedicados a um dos gigantes do teatro lírico, cujo bicentenário é comemorado em 2013.

    continue lendo