A orquestra moderna I

José Soares, regente

|    Fora de Série 2021

DEBUSSY/Busser
IVES
SATIE/Milhaud
VILLA-LOBOS
STRAVINSKY
Pequena Suíte
A pergunta não respondida
Jack in the box
Suíte para cordas
Danças Concertantes

José Soares, regente

Natural de São Paulo, José Soares é Regente Assistente da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde 2020. Venceu o 19º Concurso Internacional de Regência de Tóquio, edição 2021 (Tokyo International Music Competition for Conducting). José Soares recebeu também o prêmio do público na mesma competição. Iniciou-se na música com sua mãe, Ana Yara Campos. Estudou Regência Orquestral com o maestro Cláudio Cruz, em um programa regular de masterclasses em parceria com a Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo. Participou como bolsista nas edições de 2016 e 2017 do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, sendo orientado por Marin Alsop, Arvo Volmer, Giancarlo Guerrero e Alexander Libreich. Recebeu, nesta última, o Prêmio de Regência, tendo sido convidado a atuar como regente assistente da Osesp em parte da temporada 2018, participando de um Concerto Matinal a convite de Marin Alsop. Foi aluno do Laboratório de Regência da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, sendo convidado pelo maestro Fabio Mechetti a reger um dos Concertos para a Juventude da temporada 2019. Em julho desse mesmo ano, teve aulas com Paavo Järvi, Neëme Järvi, Kristjan Järvi e Leonid Grin, como parte do programa de Regência do Festival de Música de Parnü, Estônia. Atualmente, cursa o bacharelado em Composição pela Universidade de São Paulo.

Programa de Concerto

Pequena Suíte | DEBUSSY/Busser

A Pequena Suíte nasceu como uma peça para piano a quatro mãos em 1889; e a versão orquestrada por Henri Busser ganhou a aprovação do próprio Claude Debussy no verão de 1907, em Paris. A encantadora partitura é dividida em quatro breves peças, formando uma sequência de andamentos contrastantes, ainda que tipicamente franceses. Os dois primeiros movimentos, No barco e O cortejo, são extraídos de Fêtes galantes, obra de Paul Verlaine, poeta adorado por Debussy. Embora não ligados a nenhum poema específico, os dois movimentos finais também evocam a atmosfera nostálgica e o brilho da aristocracia do século XVIII, das condessas, senhores, padres e cavaleiros, trazidas por Verlaine. Minueto apresenta a sensibilidade pastoral de pintores emblemáticos do Rococó francês, como Fragonard e Watteau. O final Balé aponta para o joie-de-vivre parisiense de forma leve e dançante, em alusão a Emmanuel Chabrier.

Música para madeiras, trompete e cordas. Suponhamos que, em vez do título pelo qual conhecemos a pequena joia orquestral de Charles Ives, o compositor a tivesse nomeado dessa forma bem menos sugestiva, considerando um dos efetivos instrumentais previstos na partitura. Desprovida da misteriosa evocação de seu título, ainda assim essa miniatura camerística nos surpreenderia. Se acrescentarmos à experiência auditiva dados do Prefácio de Ives, publicado com a partitura, nossa admiração pela obra será ainda maior. Para Ives, trata-se de uma “Paisagem Cósmica”, na qual as cordas evocam “O Silêncio dos Druidas”, e o quarteto das madeiras representa a busca por “Respostas” à “Eterna Pergunta da Existência”, formulada pelo trompete solo. Ainda no Prefácio, o compositor aponta possibilidades de espacialização na disposição instrumental. Observa também que as madeiras não precisam obedecer, rigorosamente, os momentos das entradas previstas na partitura. Estamos, portanto, diante de uma obra-prima de horizontes vastos: politonalidade, polimetria, um certo grau de aleatoriedade, liberdade e rigor, simbolismo, transcendência. Depois de seis insistentes perguntas, que as tentativas confusas das madeiras se mostram incapazes de responder, uma última vez o trompete formula a questão perene que, agora, mergulha no insondável, no “Imperturbável Silêncio”. A singularidade de Ives, com A pergunta não respondida, parece fazer uma alegoria musical às palavras de Varèse: “Em arte, um excesso de razão é mortal. É a imaginação que dá forma aos sonhos”.

Descoberta após a morte de Satie em seu caótico apartamento em Arcueil, subúrbio de Paris, a partitura de Jack in the box consiste em uma pantomima escrita com base em um roteiro do (mais tarde) prefeito de Montmartre, Jules Dépaquit. Após uma fase impressionista, da qual as Gnossienes e as imortais Gymnopédies são as mais emblemáticas amostras, Jack in the Box sinaliza uma importante mudança, com a adoção de um estilo mais popular, emprestado da music hall. A estreia, marcada para outubro de 1899 na Comédie-Parisienne, nunca aconteceu, e a partitura desapareceu. Escrita em 1899 como uma incomum peça para piano, ganhou orquestração pelas mãos de Darius Milhaud em 1928. Dividida em três movimentos, a obra evoca a música circense, com seus ritmos e tons por vezes agitados e imprevisíveis.

A Suíte para cordas foi estreada no Rio de Janeiro, em 31 de julho de 1915. Francisco Braga regeu a Orquestra da Sociedade de Concertos Sinfônicos, e Villa-Lobos participou da primeira execução tocando como violoncelista. Em 1912, ano em que compôs a obra, Villa-Lobos estava entusiasmado com o Impressionismo francês. São do ano seguinte, 1913, duas canções com letras em francês, Fleur Fanée, op. 10, e L’oiseau Blessé D’Une Flèche, op. 18. A influência dos Balés Russos, companhia dirigida por Michel Fokine, e dos compositores de balés vindos daquele país, como Tchaikovsky, Borodin, Rimsky-Korsakov e Balakirev, fica, no entanto, evidenciada na Suíte para cordas. A biógrafa Lisa Peppercorn conta que a partitura teria sido o resultado de um pedido para a composição de música incidental para uma peça.

Em 1940, fugindo da sombra de Hitler sobre a Europa, Stravinsky partiu de seu exílio em Paris para outro lar adotado, os Estados Unidos. Ele se estabeleceu em West Hollywood, Los Angeles, com sua segunda esposa, Vera, em 1941, e ficou por quase 30 anos, partindo de lá apenas três anos antes de sua morte. Seu primeiro trabalho comissionado por um regente local foi a partitura de Danças Concertantes. A encomenda veio da Werner Janssen Symphony, nomeada a partir do primeiro norte-americano a conduzir a Filarmônica de Nova York. Stravinsky conduziu a estreia das Danças em 1942. Dois anos depois, a obra foi coreografada por George Balanchine para o Balé Russo de Monte-Carlo, no teatro do New York City Center, e novamente coreografada para o Festival Stravinsky de Nova York, em 1972.