A orquestra moderna II

Fabio Mechetti, regente

|    Fora de Série 2021

RAVEL
PROKOFIEV
BARTÓK
Mamãe Gansa: Suíte
Sinfonieta, op. 48
Música para cordas, percussão e celesta, BB 114

Fabio Mechetti, regente

Natural de São Paulo, Fabio Mechetti é Diretor Artístico e Regente Titular da Filarmônica de Minas Gerais desde 2008, ano de sua criação. Em 2014, ao ser convidado para ocupar o cargo de Regente Principal da Filarmônica da Malásia, tornou-se o primeiro brasileiro a dirigir uma orquestra asiática. Foi Residente da Sinfônica de San Diego, Titular das sinfônicas de Syracuse, Spokane e Jacksonville, sendo agora Regente Emérito das duas últimas. Foi Regente Associado de Mstislav Rostropovich na Sinfônica Nacional de Washington. Além de uma sólida carreira nos Estados Unidos e no Brasil, já conduziu em países como México, Peru, Venezuela, Nova Zelândia, Espanha, Japão, Escócia, Finlândia, Canadá, Suécia e Itália. Mechetti é vencedor do Concurso Internacional de Regência Nicolai Malko. Possui títulos de mestrado em Composição e em Regência pela Juilliard School.

Programa de Concerto

Mamãe Gansa: Suíte | RAVEL

Os cinco movimentos de Ma mère l’oye, ou Mamãe Gansa, foram originalmente escritos por Ravel para piano a quatro mãos em 1908 e orquestrados três anos depois. O título refere-se ao livro homônimo de contos de fadas do famoso Charles Perrault, ao qual pertencem as duas primeiras peças da suíte. Graves contrabaixos preparam o início da Pavana da Bela Adormecida no Bosque. O ritmo lento dessa antiga dança serve de acalanto para a princesa e seus doces sonhos. No conto seguinte, o Pequeno Polegar vagueia no centro da floresta ameaçadora. Na peça de Mme. d’Aulnoy, Feinha, a imperatriz dos pagodes, a princesinha oriental apresenta sua orquestra de porcelana tocando instrumentos de nozes e conchas. Em As conversas da Bela e da Fera, retiradas do conto da Condessa de Beaument, a orquestração de Ravel caracteriza a Bela com o encantador tema do clarinete, em ritmo de valsa. No movimento final da suíte, a Bela Adormecida desperta com o beijo de seu príncipe. O casal é conduzido ao esplendor de O jardim das fadas, que eles percorrem apaixonados, até a fascinante apoteose final.

Durante um ensaio do Poema do Êxtase, de Alexander Scriabin, a passagem da obra foi interrompida antes do fim. Deu sequência ao ensaio a execução da Sinfonieta de Rimsky-Korsakov. A brusca mudança divertiu e surpreendeu Serguei Prokofiev, que acompanhou o ensaio. Em seu diário, ele recordou que “depois da música elaboradamente mágica e majestosa de Scriabin, a Sinfonieta de Korsakov parecia tão pequena, tão virada para si, mas ao mesmo tempo transparente como água, tão adorável!” Então, Prokofiev, à época com 18 anos, decidiu compor uma obra na qual os principais aspectos fossem o encanto e a simplicidade. Escrita em 1909, antes de o compositor deixar sua cidade natal Sontsovka (no Império Russo, atual Ucrânia), a Sinfonieta passou por duas revisões até tornar-se o opus 48, um elegante e representativo exemplo do lado neoclássico de Prokofiev.

O mundo sinfônico do século XX tem muito a agradecer a Paul Sacher. O filantropo, regente e, em alguns momentos, compositor suíço formou, em 1926, a Orquestra de Câmara da Basileia e passou a comissionar trabalhos de importantes compositores. Mais de duzentas obras de nomes como Richard Strauss, Hindemith, Stravinsky, Honegger, Martinu, Tippett vieram ao mundo como resultado dos esforços da instituição. Para celebrar os dez anos da Orquestra, Sacher encomendou a Música para cordas, percussão e celesta a Béla Bartók. A obra foi o início de uma parceria que também envolveu o Divertimento para orquestra de cordas e a Sonata para dois pianos e percussão, todas pertencentes ao período mais frutífero do compositor húngaro. Em 1945, em um tributo após a morte de Bartók, Sacher o descreveu como uma leve e delicada figura, em contraste à força rítmica de seu trabalho: “Seu ser respirava luz e brilho: seus olhos brilhavam com um nobre fogo. No relance de seu olhar, nenhuma falsidade ou obscuridade podia sobreviver. Sua objetividade apaixonada penetrava tudo. Ele mesmo foi transparente até os mínimos detalhes e exigia de todos a sua máxima precisão”. A exatidão é, certamente, a característica central em Música para cordas, percussão e celesta. Apaixonado por matemática e arquitetura, Bartók toma como princípio a proporção áurea na relação entre os movimentos e em sua própria ordenação. Estabelece a disposição dos assentos no palco. Denomina-a Música por não se encaixar em nenhum outro gênero existente. A obra foi estreada em 21 de janeiro de 1937 pela Orquestra de Câmara da Basileia sob condução de Paul Sacher, a quem foi dedicada.