A orquestra pré-clássica

Luís Gustavo Petri, regente convidado
Rommel Fernandes, violino
Philip Hansen, violoncelo

|    Fora de Série 2021

NUNES GARCIA
J. C. BACH
BOCCHERINI
GLUCK
HAYDN
Abertura Zemira
Sinfonia concertante para violino e violoncelo em Lá maior
Sinfonia nº 1 em Ré maior, G. 490
Orfeu e Eurídice: Abertura, Dança dos espíritos abençoados e Dança das fúrias
Sinfonia nº 7 em Dó maior, Hob. I:7, "A Tarde"

Luís Gustavo Petri, regente convidado

Luís Gustavo Petri criou e é o regente titular da Sinfônica de Santos desde 1994. É convidado frequente de diversas orquestras brasileiras, como a Sinfônica Brasileira, Municipal de São Paulo, da USP, de Porto Alegre, do Paraná, a Filarmônica de Manaus e a Osesp. No universo lírico, já se apresentou no Theatro São Pedro e no Theatro Municipal de São Paulo com espetáculos como Magdalena, de Villa-Lobos e La Traviata, de Verdi. Dirigiu os balés Romeu e Julieta, de Prokofiev, e O lago dos cisnes, de Tchaikovsky, com coreografia de LF Bongiovanni, ao lado do Balé e da Orquestra do Teatro Guaíra. Esteve à frente de orquestras na República Dominicana e em Portugal. Em 2016, venceu o prêmio Bibi Ferreira, na categoria de Melhor Direção Musical. Juntamente com Cleber Papa, criou o projeto Ópera Curta, que promove o conhecimento sobre a ópera e difunde o gênero pelo país.

Rommel Fernandes é o Spalla em exercício da Filarmônica de Minas Gerais e mantém intensa atividade como recitalista e músico de câmara. Foi solista frente a diversas orquestras, incluindo a Filarmônica de Minas Gerais, a Osesp (como vencedor do concurso Jovens Solistas), Sinfônica de Campinas, Orquestra Unisinos, Orquestra Sesiminas Musicoop, Orquestra de Câmara da Unesp, Advent Chamber Orchestra e Northwestern University Chamber Orchestra. Doutor e Mestre em Música com honra pela Northwestern University (EUA) na classe de violino de Gerardo Ribeiro, Rommel frequentou também o Lucerne Festival Academy (Suíça) e o Tanglewood Music Center (EUA). Foi músico convidado das sinfônicas de Boston e Chicago, colaborou com o grupo Fifth House Ensemble, fez parte do corpo docente da North Park University e foi membro da Chicago Civic Orchestra. Natural de Maria da Fé (MG), Rommel iniciou seus estudos musicais no Conservatório Estadual de Pouso Alegre e obteve o Bacharelado em Violino pelo Instituto de Artes da Unesp em São Paulo, como aluno de Ayrton Pinto.

Violoncelo Principal da Filarmônica desde 2015, Philip é conhecido por transitar entre diversos gêneros musicais e por sua participação em projetos educacionais e comunitários. Foi embaixador do Departamento de Estado de Cultura dos Estados Unidos na Rússia e artista residente nos conservatórios centrais de Pequim e Shangai, além de membro por longa data da Académie Internationale Musicale em Provença, na França. É fundador e Diretor Artístico do Festival de Música de Câmara Quadra Island, no Canadá. Possui um álbum solo dedicado ao tango, Bragatissimo, que vem sendo tocado em rádios importantes como a NPR dos Estados Unidos e a CBC. Philip também compôs a música tema de Charlie the Cello, um livro infantil e também produção teatral de Deborah Nicholson, em que toca junto à Filarmônica de Calgary (Canadá). Sua gravação das Suítes de Bach para o violoncelo barroco está disponível nas plataformas de streaming e em CD.

Programa de Concerto

Abertura Zemira | NUNES GARCIA

José Mauricio Nunes Garcia, filho de pai e mãe alforriados, teve de enfrentar desde cedo as contradições de uma ascendência negra em Brasil escravocrata. Aos 26 anos já despontava como músico profissional, tornando-se Mestre de Capela da Sé e da Catedral do Rio de Janeiro. Com a chegada da Família Real em 1808, quando tinha apenas 31 anos, foi nomeado Mestre da Real Capela. Sua produção é hegemonicamente religiosa. Porém, há lugar também para obras de caráter secular, sempre ligadas a um viés dramático. A Abertura Zemira, composta cinco anos antes da transferência da Corte, insere-se nesse sofisticado leque. A Abertura, como gênero musical autônomo, surge na segunda metade do século XVIII. Nesse sentido, a obra de Nunes Garcia, escrita em estilo clássico, confirma a intimidade do brasileiro com a música de concerto de sua época, mesmo antes da vinda de D. João VI e companhia.

O último dos quatro filhos músicos de Bach se encantou pela beleza orquestral da sinfonia concertante. Após visitas a Mannheim e Paris, cortes onde a modalidade estava em voga, ele voltou-se naturalmente para o gênero a partir de 1770. Publicada em Paris em 1775, a Sinfonia concertante para violino e violoncelo em Lá maior faz parte de um manuscrito com doze peças semelhantes e indica a influência do estilo italiano sobre o compositor. Embora sejam coesos, os dois movimentos da obra são contrastantes.

Luigi Boccherini é o protagonista italiano da sonata vienense. Nascido em uma família de musicistas em Luca, Itália, aprendeu violoncelo com o pai, Leopoldo, e tornou-se um dos maiores violoncelistas de seu tempo. Aos 14, já era um virtuose conhecido em Viena. Como membro do Quartetto Toscano, o primeiro quarteto de cordas profissional de todos os tempos, Boccherini viajou por toda a Europa fazendo apresentações ao lado dos violinistas Filippo Manfredi e Pietro Nardini e do violista Giuseppe Cambini. Em 1767, foi ouvido pelo embaixador da Espanha em Paris, o que resultou num convite para uma residência permanente na corte espanhola, incentivado pelo príncipe Don Carlos, um violinista amador. Sob o patrocínio real, sua genialidade floresceu. Um melodista natural, ele deu ao mundo, na fronteira entre o classicismo e o romantismo, uma vasta produção musical, incluindo 33 sinfonias, 12 concertos para violoncelo e 93 quintetos para corda. De imperturbabilidade clássica e escrita contida, sua Sinfonia nº 1 em Ré maior, G. 490 é caracterizada pela prevalência de tons quentes da trompa. Escrita em 1771 – já no período espanhol –, foi publicada em Nápoles por Luigi Marescalchi. Alguns temas encontrados no oratório Giuseppe Riconosciuto e na cantata La Confederazione dei Sabini con Roma foram usados na criação da Sinfonia nº 1.

Durante mais de três séculos, o mito de Orfeu permaneceu como um dos temas mais recorrentes em óperas. Gluck, mais do que qualquer outro, deu novos ares ao já conhecido personagem. Diferentes versões de Orfeu e Eurídice foram produzidas, seguindo diferentes escolas operísticas e com o intuito de atender aos anseios de diferentes públicos. Criada a partir do texto do italiano Raniero de’Calzabigi, e posteriormente adaptada ao gosto e maneirismos parisienses tendo como base um libreto do francês Pierre Luis Moline, foi estreada na Opéra de Paris em 2 de agosto de 1774. Adicionada na versão para a capital francesa, a Dança dos espíritos abençoados é uma das peças fundamentais do repertório de Gluck.

Enraizadas no Barroco, as três sinfonias de 1761 miram longe e apontam para o caminho que Haydn trilharia no futuro. Ao se estabelecer no palácio Esterháza, em Eisenstadt, na Áustria, como Mestre de Capela [Kapellmeister], um de seus primeiros trabalhos foi a trilogia de sinfonias, A Manhã, A Tarde e A Noite. Segundo o biógrafo Albert Christoph Dies, tanto os títulos quanto a ideia de composições sobre momentos do dia teriam sido sugestões do príncipe Paul Anton Esterházy. Haydn atuou como consultor musical antes mesmo de se estabelecer na corte e, à época de sua contratação, algumas mudanças já tinham sido efetivadas na orquestra, como a chegada de sete novos músicos de sopro. Um dos traços mais marcantes deste tríptico é, justamente, a presença contínua de instrumentos solistas, aproximando estas obras do antigo concerto grosso. A intenção era a de fazer brilhar os virtuoses perante o príncipe. Assim, essas passagens tinham o duplo propósito de apresentar ao príncipe as habilidades e ambições composicionais de Haydn e, simultaneamente, consolidar uma calorosa relação entre o diretor musical e sua nova orquestra. As rápidas notas da flauta no Finale Presto descrevem uma tempestade numa tarde de verão. A tensão do relâmpago não diminui até o último acorde.