Ópera

Luís Gustavo Petri, regente convidado

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MOZART
WAGNER
LEHÁR
MUSSORGSKY
GOMES
VERDI
ROSSINI
MASCAGNI
PONCHIELLI
VERDI
Idomeneo, K. 366: Abertura
O crepúsculo dos deuses: Viagem de Siegfried pelo Reno
A viúva alegre: Abertura
Khovantchina: Dança das escravas persas
Condor: Noturno
As vésperas sicilianas: Abertura
Cinderela: Abertura
Cavalleria Rusticana: Intermezzo
La Gioconda: Dança das horas
Aida: Marcha triunfal e balé

Luís Gustavo Petri, regente convidado

Luís Gustavo Petri criou e é o regente titular da Sinfônica de Santos desde 1994. É convidado frequente de diversas orquestras brasileiras, como a Sinfônica Brasileira, Municipal de São Paulo, da USP, de Porto Alegre, do Paraná, a Filarmônica de Manaus e a Osesp. No universo lírico, já se apresentou no Theatro São Pedro e no Theatro Municipal de São Paulo com espetáculos como Magdalena, de Villa-Lobos e La Traviata, de Verdi. Dirigiu os balés Romeu e Julieta, de Prokofiev, e O lago dos cisnes, de Tchaikovsky, com coreografia de LF Bongiovanni, ao lado do Balé e da Orquestra do Teatro Guaíra. Esteve à frente de orquestras na República Dominicana e em Portugal. Em 2016, venceu o prêmio Bibi Ferreira, na categoria de Melhor Direção Musical. Juntamente com Cleber Papa, criou o projeto Ópera Curta, que promove o conhecimento sobre a ópera e difunde o gênero pelo país.

Programa de Concerto

Idomeneo, K. 366: Abertura | MOZART

Em outubro de 1780, Wolfgang Amadeus Mozart recebeu encomenda de uma ópera do príncipe Carlos Teodoro da Baviera para o próximo carnaval de Munique. Interessado pela possibilidade de trabalhar com uma orquestra sem igual para a época e um grupo de cantores proeminentes, o compositor deixou de lado outras composições operísticas que o ocupavam e passou a se dedicar ao trabalho. Com apenas 25 anos, Mozart escreveu Idomeneo, sua terceira e mais importante investida na opera seria, com enredo histórico ou mitológico. Idomeneo representou um grande impulso na produção mozartiana, síntese muito particular de marcantes experiências: a ópera séria italiana, as conquistas orquestrais de Mannheim e a influência de Gluck, reminiscência da estada em Paris. Apesar do sucesso da estreia, a obra passou por longo e lamentável período de esquecimento. Só após a Primeira Guerra, Richard Strauss, quando dirigia a Ópera de Viena, redescobriu por acaso a partitura.

Em outubro de 1848, Richard Wagner começou a elaborar o resumo em prosa do que mais tarde se tornaria o ciclo O anel do Nibelungo, tetralogia constituída pelas óperas O ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e O crepúsculo dos deuses. Isso se deu cinco anos antes de qualquer composição musical, vinte e seis anos antes que o ciclo ficasse completo. Somente depois de vinte e oito anos, em 17 de agosto de 1876, o mundo pôde conhecer o ciclo completo, cuja estreia ocorreu em Bayreuth, Alemanha, sob a regência de Hans Richter. Construída em três atos e um prólogo, esta obra é um perfeito exemplo da maestria de Wagner ao tratar o drama e a música, de modo que produz excertos sinfônicos de grande sucesso. O próprio Wagner promoveu a prática de adaptar suas peças para as salas de concertos, compondo, em alguns casos, novas aberturas, transições e encerramentos. Em Viagem de Siegfried pelo Reno, Siegfried deixa a caverna para onde havia se retirado com Brünnhilde no fim da ópera anterior. O interlúdio orquestral evoca o nascer do sol, e logo o herói parte em uma nova aventura.

Em 1902, Franz Lehár deixou a carreira militar para se dedicar ao trabalho de escrita para o teatro popular vienense. Três anos de tentativas e erros sucederam o golpe de sorte que mudaria para sempre sua história e a da ópera do século XX. Em 1905, após o compositor Richard Heuberger declinar do convite para trabalhar num novo projeto, Lehár aceitou a missão de criar a partitura de A viúva alegre a partir do libreto de Victor León e Leo Stein. A modesta recepção à estreia, em 30 de dezembro de 1905, no Theater an der Wien, em Viena, contrasta com o sucesso subsequente. O enredo se passa em Paris, onde cidadãos de Pontevedro, um principado pobre dos Bálcãs, se esforçam para convencer Hanna, uma viúva rica de seu território, a se casar com um cidadão de sua terra, tarefa dificultada por inúmeros admiradores franceses. Ao longo da temporada e na temporada seguinte, A viúva alegre caiu no gosto dos palcos populares na Europa e Estados Unidos, tornando-se o maior triunfo internacional na história das operetas. Com Lehár e A viúva alegre, a opereta vienense entra, por fim, no século XX.

Em 1881, após a morte de Modest Mussorgsky aos 42 anos, alguns músicos começaram a organizar sua inacabada produção musical, o que resultou em uma confusa e variada quantidade de orquestrações, conclusões e redações. No entanto, a publicação de seus trabalhos póstumos foi majoritariamente realizada pelo amigo Rimsky-Korsakov, que assumiu a tarefa de maneira altruísta e cedeu suas edições gratuitamente ao editor. A primeira empreitada de Korsakov nos manuscritos de Mussorgsky foi se debruçar sobre a ópera Khovantchina; seu trabalho consistiu em preencher lacunas, revisitar ou substituir passagens consideradas fracas, bem como orquestrar toda a partitura. O pitoresco movimento da Dança das escravas persas já tinha ganhado admiração do Grupo dos Cinco em 1876, quando Mussorgsky o tocou no piano. Primeira cena do quarto ato, a partitura vocal da peça foi criada entre agosto de 1875 e agosto de 1876. Foi apresentada pela primeira vez de forma separada em São Petersburgo pelo próprio compositor. À época, Mussorgsky tinha se comprometido a terminar a partitura da Dança a tempo da apresentação, mas seus atrasos fizeram o amigo Korsakov se voluntariar para finalizar a orquestração. A proposta fora aceita de imediato e o trabalho ficou pronto bem a tempo da estreia, na qual foi recebida com grande entusiasmo.

Condor foi a última obra lírica escrita por Carlos Gomes – estreou no dia 21 de fevereiro de 1891 no Teatro alla Scala, em Milão. A obra dá a ver a predileção do compositor pelo verismo, corrente operística pós-Romântica que busca seus temas não em entidades divinas ou nobres, mas sim em questões contemporâneas de homens e mulheres ordinários. O drama de desenrola na Samarcanda, a segunda maior cidade do Uzbequistão. O Condor do título não se refere ao pássaro nativo dos Andes. Ele é um aventureiro, filho de um sultão, que se apaixona pela rainha Odalea e por ela se sacrifica. A música é cheia de elementos exóticos atribuídos pela tradição italiana ao Oriente Médio daquela época. O Noturno, a peça que abre o último ato da ópera, nada mais é do que um prelúdio que prepara o ato conclusivo, neste caso antecedendo uma cena lírica noturna. Segundo crítica publicada no dia seguinte à estreia, Gomes fora “verdadeiramente inspirado” na composição do Noturno. De fato, é grande o número de óperas escritas na Itália na segunda metade do século XIX que contêm uma peça orquestral que cria o ambiente adequado para a cena dramática (o que é chamado pelos veristas de ambientismo). E os prelúdios a se firmarem como referências foram La Traviata, de Verdi, e Lohengrin, de Wagner. No entanto, o prelúdio de Gomes oferece uma diferença: embora também prepare e anteceda tematicamente a cena seguinte, seu Noturno é dono de estrutura temática que lhe permite autonomia como peça sinfônica.

Na década de 1850, com o sucesso da trilogia formada pelas óperas Rigoletto, II Trovatore e La Traviata, a fama de Giuseppe Verdi ultrapassa as fronteiras italianas com a encomenda de As vésperas sicilianas pela Opéra de Paris. O enredo relata a ocupação de Palermo, em 1282, pelas tropas francesas do governador Monfort. Liderados pelo bravo Procida, dois jovens apaixonados, Helena e Arrigo, lutam pela libertação da Sicília. A situação torna-se mais dramática com a revelação de que Arrigo é, na verdade, filho de Monfort. A Abertura de As vésperas sicilianas é uma das poucas peças de Verdi incorporadas ao repertório sinfônico. Seus temas são todos tirados da ópera. O convite para compor para a Ópera de Paris significou para Verdi um desafio de renovação. Composta em francês sobre um libreto de Eugène Scribe e Charles Duveyrier, As vésperas sicilianas é uma obra tipicamente francesa (mesmo se executada em sua tradução italiana). O compositor deveria, portanto, submeter-se às exigências habituais do gênero: cinco atos, dois bailados, nova concepção de instrumentação e um enredo que valorizava mais as situações dramáticas do que os personagens. Do alto da fama, Verdi entrava corajosamente em nova fase experimental, e o resultado, após um ano de trabalho exaustivo, enriqueceu ainda mais sua notável bagagem artística.

A releitura para o conto de fadas de Charles Perraut foi uma das vinte óperas escritas por Gioacchino Rossini num intervalo de oito anos. Cinderela, em italiano, La Cenerentola, foi escrita entre o fim de 1816 e o início de 1817, bem a tempo da estreia durante temporada de Carnaval em Roma, em 25 de janeiro, no Teatro Valle. Tendo enfrentado problemas com a censura do Vaticano em trabalhos anteriores no Teatro Valle, Rossini questionou se o libretista Jacopo Ferretti teria "coragem" de escrever uma adaptação para os palcos de uma obra tão clássica. Desafiado, Ferretti produziu o esboço em uma madrugada e o entregou a Rossini no dia de Natal. O libreto ficou pronto em vinte e dois dias. Como em uma prova de revezamento, em que libretista e compositor caminham praticamente juntos, Rossini veio logo atrás, terminando a partitura em vinte e quatro dias. As performances iniciais receberam críticas indecisas, mas, pouco tempo depois, Cinderela decolou, tornando-se uma das óperas mais amadas do século XIX. Para conseguir entregar a partitura a tempo dos ensaios e da estreia, o compositor acabou por pegar emprestado alguns temas de outras óperas. E dessa maneira foi criada a Abertura desse trabalho.

Pietro Mascagni já vinha conduzindo companhias de ópera por diversas temporadas quando, em 1886, se casou e se estabeleceu como professor de música em Apúlia, Itália. Embora não tivesse o diploma, ele fora aluno do Conservatório de Milão, onde tomou aulas de composição com Ponchielli e dividiu um apartamento com Puccini. Com o casamento e um bebê a caminho, a necessidade de uma renda estável ficou cada vez mais latente. Sabendo de uma competição anunciada em junho de 1888 para novas óperas feitas por jovens autores italianos, o compositor de 25 anos decidiu interromper o que já estava em processo para se dedicar ao concurso. Ele encomendou a dois escritores um libreto baseado em Cavalleria Rusticana, peça de Giovanni Verga. Em dezembro de 1888, eles lhe entregaram o libreto que o ocuparia pelos cinco meses seguintes. Terminada em maio de 1889, a partitura recebeu o primeiro lugar na competição e foi logo programada para estrear em Roma em 17 de maio de 1890. O sucesso imediato de Cavalleria Rusticana reforçou em Mascagni a tendência por óperas orientadas pelo verismo, corrente operística pós-Romântica, cuja principal referência era justamente Giovanni Verga, o autor da peça de mesmo nome usada como base por Mascagni. O enredo se passa em uma aldeia siciliana, e o Intermezzo ocorre num momento em que todos os habitantes se recolhem antes da ação final.

Mesmo tendo dez óperas no portfólio, Amilcare Ponchielli entrou para a história pelo sucesso absoluto de La Gioconda. Popular desde a estreia, oito de abril de 1876, no Teatro alla Scala, em Milão, é a única ópera produzida na "era de Verdi" que não pertence ao próprio Verdi. Ela, portanto, cumpre um importante papel na compreensão da diversidade da ópera italiana na segunda metade do século XIX, antes da chegada do verismo. Mesmo tendo se tornado aluno do Conservatório de Milão com apenas nove anos, o sucesso profissional demorou a chegar para Ponchielli. Ironicamente, a estreia de La Gioconda foi regida por Franco Faccio, que uma década antes tinha ficado com a vaga de professor para a qual Ponchielli era o candidato favorito. As páginas mais famosas de La Gioconda são ocupadas pela partitura de Dança das horas, sequência de balé que se passa na segunda cena do terceiro ato. O icônico movimento também se estabeleceu fora das salas de concerto. Na cultura pop, Dança das horas também serviu de trilha para a coreografia de hipopótamos, avestruzes e jacarés em Fantasia animação de 1940 da Disney.

Aida é a única montagem pertencente ao rol das grandes óperas a ter sua estreia em solo africano. Encomendada a Giuseppe Verdi pelo governador do Egito, por sugestão do arqueólogo Auguste Mariette, Aida conheceu o mundo em 24 de dezembro de 1871, no Teatro da Ópera do Cairo. O grandioso palco havia sido inaugurado dois anos antes, em celebração à abertura do Canal de Suez. Principal nome da ópera mundial havia pelo menos dez anos, Verdi não atravessou o Mediterrâneo para acompanhar a estreia. Mas sua mais importante ópera viajou não somente por aquele mar, mas por tantos outros – mares e oceanos – nos anos seguintes. Em dez anos, foi montada em mais de 150 palcos ao redor do globo. Atendendo ao pedido de algo com tamanha pompa e epicidade, o bastante para competir em popularidade com os trabalhos de Giacomo Meyerbeer, Verdi idealizou no segundo ato a dramática cena da marcha com o inimitável som do trompete. Um dos maiores monumentos de Aida, a Marcha triunfal e balé foi inspirada na tradição francesa da grand opéra.

4 abr 2020
sábado, 18h00

Sala Minas Gerais
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