|    16 abr 2020

Maestro indica: a “Sinfonia Eroica” de Beethoven

Até que voltemos a nos reencontrar nos concertos da nossa Orquestra em nossa Sala, toda quinta-feira nosso Diretor Artístico e Regente Titular, Fabio Mechetti, vai sugerir uma interpretação incrível de uma obra que ele considera essencial e transformadora. Daquelas obras-primas que todos devem conhecer e que, certamente, serão um afago neste período de quarentena. E o maestro começa com o aniversariante do ano, Ludwig van Beethoven.

BEETHOVEN | Sinfonia nº 3 em Mi bemol maior, op. 55, “Eroica”

O gênio de Beethoven com a força de Abbado

por Fabio Mechetti

A figura de Beethoven se mistura fortemente com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade promulgados pelos iluministas e pela Revolução Francesa. Várias de suas obras oferecem claramente essa preocupação com o impulso livre do indivíduo e sua independência, seja do jugo político ou do peso da moral imposta pelos padrões da época. Sua ópera Fidelio, por exemplo, mostra no libreto e na música por ele escrita esse favoritismo por posições liberais, em que a vontade do indivíduo e sua busca da felicidade tornam-se objetivos maiores.

Outra famosa obra de “ruptura” foi sua Sinfonia nº 3 em Mi bemol maior, conhecida como a “Eroica”. Originalmente escrita para celebrar as conquistas de Napoleão, ela se transformou numa demonstração de repúdio ao falso libertador que, assim que assume o poder, resolve também assumir o controle. Beethoven então rompe com a figura de Napoleão e dedica sua obra àqueles que são os verdadeiros heróis na busca constante pela liberdade incondicional.

Essa liberdade também se expressa estruturalmente na obra em si. Primeiramente, a “Eroica” é historicamente a mais longa sinfonia escrita até então. Formalmente, ela dispensa a introdução em seu primeiro movimento, fazendo com que dois acordes contundentes sejam o necessário para convidar o ouvinte a acompanhar a narrativa que se segue. Suas dimensões são extremas, principalmente ao ser comparada com todas as sinfonias escritas até então. Sua riqueza de ideias, e como Beethoven as desenvolveu, não encontra paralelo, nem mesmo em suas próprias obras até então. Nela encontramos a desesperança expressa na marcha fúnebre do segundo movimento e o otimismo contagiante de seu finale. Enfim, aqui Beethoven se mostra musicalmente como o herói que iria ditar os parâmetros que definiriam a música ocidental dali pra frente.

Existem várias interpretações dignas de indicação aqui, mas vou me ater a esta: Claudio Abbado (já bastante doente, mas totalmente comprometido com a força expressiva dessa execução) e a Orquestra do Festival de Lucerna. A perfeição técnica de uma orquestra composta pelos melhores músicos das grandes orquestras internacionais, como Berlim, Amsterdã, Viena etc., aliada à entrega que eles conferem ao compositor e a um maestro admirado por todos eles, faz desta execução algo realmente especial de se assistir.

Leia mais: nota de programa desta sinfonia, escrita pelo musicólogo Paulo Sérgio Malheiros dos Santos.

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